Mariana Silveira

Dia Internacional da Hipocrisia

Não quero flores e também não quero ser lembrada hoje. Não quero um dia especial. Um dia para “reconhecer” tudo o que já venho fazendo há anos.
Não preciso de uma data só minha. Não quero ser diferente. Quero ser reconhecida como igual, todos os dias. Não quero que me enxerguem hoje como a “mulher iluminada” por criar os filhos e fazer a janta. Não quero que me encarreguem todo o peso dessa tarefa estereotipada.
Não quero que levem em consideração o meu sexo em um processo seletivo, que me perguntem se sou casada ou se tenho filhos. Isso não interfere na minha capacidade e dedicação.
Não quero que buzinem para mim no trânsito só porque estou dirigindo e sou mulher, e muito menos desejo que buzinem para mim ou mandem beijos e assovios enquanto eu estiver caminhando pela rua.
Não quero sentir mais medo de andar sozinha. Não quero me preocupar com as roupas que visto, se estou me expondo demais para ser assediada.
É péssimo saber que, antes de tudo, minha imagem será associada ao sexo, independentemente de onde eu estiver.
E que eu vou precisar me dedicar três vezes mais por ser mulher para ter algum reconhecimento.
Não quero que duvidem da minha capacidade, ou que definam minha personalidade pela maquiagem que uso ou pelas roupas que visto.
Também não quero que definam meu caráter pela quantidade de namorados que já tive, se estou solteira ou casada.
Não quero que apontem o dedo dizendo que “estou de TPM” ou “sou mal comida” simplesmente pelo fato de eu ter dado a minha opinião ou fazer alguma crítica. Ou até mesmo por ter me revoltado com algo. Eu também tenho direito de me revoltar e ser ouvida.
Não me venha com flores hoje. Eu sei que elas murcham e morrem quando o dia termina.
Respeito, justiça e igualdade diariamente deveriam valer bem mais do que flores e homenagens hipócritas a cada 365 dias.

Resenha: Diário de um Ladrão de Oxigênio

No final do ano passado a editora Intrínseca lançou aqui no Brasil um livro intrigante intitulado “Diário de um Ladrão de Oxigênio”. A obra já está publicada originalmente em inglês desde 2006 sob o título “Diary of an Oxygen Thief” e trata-se de um livro de memórias de um homem nojento que descreve uma reviravolta em sua vida, descrevendo um “troco” que o desmoronou.

O autor não revela sua identidade, nomeando-se como “Anônimo”, o que já desperta a nossa curiosidade.

O narrador anônimo é um homem irlandês dependente de álcool, paranoico e doentio. Acho que estou sendo até gentil em usar essas palavras, porque o cara é realmente ESCROTO LEVEL HARD. É um dos personagens mais escrotos que já me deparei em minha jornada de leitora. Os leitores de Diário de um Ladrão de Oxigênio precisam de muito estômago e frieza para encarar essa obra repugnante.

O cara é muito mais do que a definição do machismo combinada com mais escrotidão ainda. Além de todo comportamento violento e briguento que ele apresenta em bares que frequenta, ele sente, principalmente, a necessidade de causar dor e sofrimento em mulheres. A visão que ele possui das mulheres é revoltante.

O que ele faz é envolver-se com mulheres, passar-lhes segurança e quando ele percebe que conseguiu a confiança da parceira, termina o relacionamento de maneira grosseira, cruel e absurda. Simplesmente pelo prazer que sente ao fazê-las sofrer, ao ver a decepção e a mágoa em seus olhos. É mesmo um desgraçado.

O livro é dividido em três partes. A primeira delas é uma introdução em que o anônimo nos conta um pouco de sua personalidade e seus vícios, além de um breve histórico do que ele fez com mulheres que se envolveu.

Depois, ele narra como foi que conheceu a tal assistente de fotógrafo que armou toda uma situação e deu o troco nele. E por último, os detalhes de como esse “troco” aconteceu.

O autor informa nomes de algumas pessoas e denuncia um determinado acontecimento (não darei spoilers), o que deixa no ar se tudo isso realmente aconteceu ou não.

Honestamente, o troco que ele recebeu foi muito leve para todo o mal que ele causou a muitas mulheres. Ele merecia muito mais.

É uma leitura repugnante, sem dúvidas. Porém ao mesmo tempo desperta muita curiosidade em uma narração envolvente. Afinal, ficamos ansiosos em ver esse desgraçado se dar mal!

Book da Semana: Intergaláctica

Muitos leitores tem bastante receio ao iniciar uma leitura de ficção que envolve muita fantasia e viagens a outros planetas, principalmente pelos casos de tentativas “fail” de histórias inovadoras com universos complexos sem fundamentos. Mas a dica de leitura dessa semana é totalmente o oposto disso! Estou falando de “Intergaláctica: Onde estaria a segunda terra?”, que é o primeiro e sensacional livro da trilogia de F. P. Trotta, um escritor que merece MUITO destaque. Sua obra me impressionou bastante principalmente por ser cheia de detalhes e me deixou super ansiosa pela continuação. Correrei atrás dos próximos volumes!

Nesse primeiro livro conhecemos a protagonista Amanda. Uma garota de muita personalidade e coragem – e haja coragem – que além de ser super inteligente, embarcará em uma missão extremamente perigosa, com o objetivo de impedir seu pai (Oswald) a realizar um grande estrago com a Terra e com a humanidade. Oswald é um personagem que nos deixa boquiabertos pelo extremo de frieza que ele consegue chegar.

A narrativa é muito interessante porque se inicia com a Amanda ainda criança, quando ela faz uma descoberta sobre algo que o pai anda tramando. No capítulo seguinte a cena já é cortada para alguns anos depois, em que ela, agora adolescente, toma uma certa decisão importantíssima em sua vida.

Depois o desenrolar dessa aventura dá continuidade com Amanda já adulta, acompanhada de mais outros três personagens: Striker, Ripley e Lina – cada um com seu jeito e personalidades diferentes, com papéis fundamentais ao longo da história.

É incrível como Intergaláctica apresenta reviravoltas. Há uma série de acontecimentos em planetas diferentes ricamente descritos, sem falar nos diversos momentos de reflexão e filosofia. Mesmo com personagens e planetas fictícios, essa obra nos permite viajar em pensamentos e questionamentos sobre a nossa existência no universo, sobre quem realmente somos, para onde iremos e tudo o mais que desconhecemos.

Intergaláctica foi uma história inédita para mim. Uma experiência única de leitura que gostei muito! Realmente incrível e super indico para aqueles que curtem uma história de ficção científica.